Esse texto saiu no dia 16 de julho de 2016, no caderno Tendências Mundiais do The New York Times International Weekly que sai na Folha de São Paulo e me chamou atenção para algo mais importante.

Basicamente os grandes desenvolvedores de aplicativos não estão exatamente mudando a vida de toda a sociedade, mas só a aqueles de classe social “conectada”.

Todo dia aparecem grandes lançamentos de aplicativos, que somem na mesma velocidade. Obvio que grandes aplicativos como o Whatsapp, Waze, Maps, tornaram a vida da grande maioria melhor. Grande maioria ? Classe A , B e C?

Mas na verdade o que vemos é somente o interesse de startups preocupadas muito mais em ganhar dinheiro para justificar investimentos de “anjos” (não sei se o apelido é apropriado) do que realmente fazer algo útil para todos. Serviços que fazem a mala, te ajudam a tomar água suficiente, que tal um aplicativo que analisa a qualidade do seu beijo de língua, delivery de cerveja, enfim acabamos lembrando aquela frase que ficou famosa no começo dos anos 80 quando a “informática” começou a se consolidar :

A INFORMÁTICA VEIO PARA RESOLVER PROBLEMAS QUE ANTES NÃO EXISTIAM. KKKKK

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O texto que li de Allison Arieff .

Todos os dias, empresas inovadoras prometem transformar o mundo num lugar melhor.

Está dando certo?

Esta é apenas uma amostra dos produtos, aplicativos e serviços que entraram no meu radar nas últimas semanas:

Um serviço que manda alguém abastecer o carro no seu lugar.

Um serviço que manda um manobrista de moto a qualquer lugar para estacionar o seu carro.

Um serviço que faz as malas para você — virtualmente.

Um serviço que entrega uma nova escova de dentes na sua caixa de correio a cada três meses.

Um delivery de cerveja.

Um aplicativo que analisa a qualidade do seu beijo de língua.

Zíperes e botões “inteligentes” que avisam se você está com a braguilha aberta.

Um aplicativo com alto-falantes que toca música a partir das paredes vaginais da futura mãe para um bebê em gestação.

Um sensor colocado em fraldas que avisa a hora de trocá-las.

Um aplicativo que orienta a meditação consciente.

E uma nova proposta para criar um aplicativo destinado a evitar mortes por policiais.

Estamos sobrecarregados de novas descobertas, patentes e invenções, todas elas prometendo uma vida melhor — embora, para a maioria de nós, essa “vida melhor” não seja tão evidente. Na verdade, a maior parte da lista acima mira uma fatia específica (e minúscula!) da população. Como me explicou um colega da área de tecnologia, para a maioria das pessoas que trabalham em projetos desse tipo, o objetivo é obter para si tudo o que as suas mães não oferecem mais.

Era uma brincadeira, mas seu comentário me fez pensar bastante em quem se beneficia disso tudo. Temo que tamanho foco no conforto e na gratificação instantânea possa reduzir o mundo inteiro àqueles personagens do filme “Wall-E”, refestelados em poltronas reclináveis e interagindo com o mundo apenas por intermédio de um controle remoto.

Muitos esforços empresariais acabam prometendo mais do que podem cumprir (por exemplo, o exame de sangue com um furinho no dedo, da Theranos) ou são encarados como paródia (mas, infelizmente, não são — caso do copo de US$ 99 que monitora o seu consumo de água e avisa quando é preciso tomar mais).

Quando tudo é apresentado como algo que “muda o mundo”, haverá mesmo alguma coisa capaz de mudá-lo?

O impulso de misturar a entrega de escovas de dentes em domicílio com boas ações dignas de um Nobel se espalha feito fogo no mato dentro do setor da inovação. Produtos e serviços são concebidos mais para “perturbar” determinados setores (em outras palavras, para levar ao mercado coisas das quais ninguém realmente precisa) do que para resolver problemas concretos, especialmente se esses problemas afetam a “subclasse não exótica”, para usar a descrição da escritora C.Z. Nnaemeka — mães solteiras, brancos pobres das zonas rurais, veteranos das Forças Armadas, americanos desempregados com mais de 50 anos, em suma, aqueles que, segundo a autora, têm “o azar de não serem suficientemente interessantes”.

Se a definição mais fundamental de design é resolver problemas, por que tanta gente dedica tanta energia a resolver problemas que não existem?

No recém-lançado livro “Design: The Invention of Desire” [Design: a invenção do desejo], de Jessica Helfand, a autora revela uma informação incrível: ‘hack’ (hackear), um termo tão amado no Vale do Silício que chega a estar escrito no pátio da sede do Facebook, é também uma gíria em prisões para se referir aos carcereiros, por ser a sigla em inglês da frase “bunda de cavalo carregando as chaves”.

“Hackear” é cortar, rasgar, quebrar. Vem da crença de que nada se salva, de que tudo precisa de conserto. Mas é realmente assim? Estamos consertando as coisas certas? Quebrando as erradas? É preciso começar do zero a cada vez?

Empatia, humildade, compaixão, consciência: eis os ingredientes que faltam na busca pela inovação, argumenta Helfand, e no seu livro ela explora o design e, por extensão, a inovação. Ela defende que a inovação se baseia menos em criar e muito mais em desmanchar o trabalho alheio.

“Neste ambiente de pouca humildade, a ideia de ruptura agrada por ser uma espécie de provocação subversiva”, escreve ela. “Muitos designers acham que estão inovando quando estão apenas quebrando e invadindo.”

Talvez a principal razão da minha irritação com esses produtos e serviços frívolos seja a insistência dos seus criadores em me convencer de que mudar vidas para melhor é a sua razão de viver. A saber, o capitalista de risco Marc Andreessen, que já investiu em empresas como Airbnb e Twitter, mas também em serviços como o LikeALittle (que começou como uma ferramenta de paquera entre universitários) e o Soylent (uma espécie de SlimFast em versão para geeks tecnológicos), tuitou recentemente: “A manchete eternamente em falta: ‘O capitalismo funcionou corretamente hoje outra vez, e a maioria das pessoas do mundo melhorou um pouquinho’”.

Enquanto isso, em San Francisco, onde ficam as sedes dessas empresas, a elevação do nível do mar é um presságio sinistro, a disparidade de renda entre ricos e pobres cresce mais rapidamente do que em qualquer outra cidade americana e para pagar o aluguel de um imóvel médio é preciso ter um salário anual de pelo menos US$ 254 mil (R$ 830 mil). Quem exatamente melhorou de vida?

Helfand propõe uma adoção mais profunda da autovigilância. “O design pode fornecer o mapa”, escreve ela, “mas a bússola moral que guia nossas escolhas pessoais reside permanentemente dentro de nós”. Podemos redefinir essa bússola moral? Talvez devêssemos começar não sendo um bando de hackers.

Allison Arieff escreve sobre arquitetura e design. 


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