Final de semana passado assisti ao filme francês A Viagem do meu Pai, de Philippe Le Guay, que estreou em agosto de 2016, e quero compartilhar minha percepção acerca do filme com vocês. O filme aborda a temática da demência senil de forma leve, mas não menos intensa e realística. 

O Sr. Claude, aos seus 80 anos, confunde frequentemente eventos cotidianos a fatos marcantes de sua história, oscilando sempre entre a realidade e a fantasia.

No decorrer da trama sua filha tenta, de todas as formas, manter o pai, Sr. Claude, em sua própria casa fornecendo todo aparato possível, mas aos poucos vai travando uma “batalha interna” para manter toda a estrutura necessária para tal.

Não é fácil lidar com este turbilhão de emoções, que neste caso aparecem quando a filha se dá conta de que a realidade das necessidades do pai vão além do que ela imaginava que fosse possível dar conta sozinha. Então, acaba se deparando com a necessidade de contratar uma pessoa estranha para cuidar de seu genitor. Faço uma ressalva nesse ponto com relação aos cuidadores de idosos, pois contratar cuidadores, por vezes, não é uma tarefa tão fácil.

O que a filha “passa” no filme, muitas famílias relatam em meu consultório e saber lidar com casos demenciais tem que no mínimo saber das limitações do idoso bem como de suas próprias limitações. E isso, abre uma discussão para pensarmos quando nos depararmos com esse problema. Hoje, a profissão de cuidador de idosos é promissora, mas é imprescindível ter conhecimento técnico para lidar com nossos idosos. Sugiro sempre, que ao contratar asseverem não só referencias, mas que tenham treinamento adequado para exercer tal função.

Bom, voltando… mas o grande ponto que quero explanar aqui, e que é trabalhado no filme,  é o dilema de quando internar um ente próximo num lar geriátrico. Esse é um assunto tão delicado e que inevitavelmente gera um desconforto. Pensamentos como:

Serei uma filha cruel?

Ele não vai me perdoar por isso?

Sentir-me-ei culpada a vida toda…….

… podendo até gerar um sentimento de alívio a partir da decisão tomada, mas que até esse sentimento pode ser causador de culpa. Afinal de contas não é uma decisão fácil institucionalizar seu pai ou sua mãe, envolve uma reflexão que vai além de suas “forças” ou “vontades”, que pode remeter até na reflexão de seu próprio processo de envelhecimento.

 

Samantha Sittart
Psicóloga Clínica
CRP 07/23524
sittart.psicologia@gmail.com

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