“Haverá, por exemplo, tormento maior do que não poder ficar sozinho – um momento ao menos?”

E você, acha que pelo menos de vez em quando, é preciso estar sozinho?

Segundo Dostoivévski, essencial, fundamental, até mesmo para a continuidade sã da vida; caso contrário, uma quase-morte. Diz ele durante seu confinamento por 10 anos numa penitenciária da Sibéria, nos confins do nosso mundo. Por mais paradoxal que possa parecer, a privação da solidão é o tormento que ele mais sente, visto estar sempre rodeado de pessoas, ou sob vigilância, constantemente observado. Estar só é o momento no qual refletimos, quando entramos em contato conosco, quando permitimos escutar a nós mesmos; “temos duas orelhas, e a nossa boca é a que normalmente está mais perto delas”, já dizia um amigo. Ouçamo-la, portanto.

Ao nos cercarmos de gente e estímulos externos, como vamos ouvir o que nosso âmago tem a dizer? Ele normalmente fala baixo, é preciso estarmos atentos; é pra isso que serve, também a solidão; ou melhor, a solitude, termo criado para enaltecer a ‘GLORIA’ de estar só, a “consciência da plenitude da sua própria presença, ao invés da [necessidade da] presença dos outros”, citando Alice Koller, pensadora e escritora norte americana.

Antagonicamente surge então a mal-dita solidão, representando a ‘DOR’ do estar só, mas também imprescindível, pois nela temos a oportunidade de encaramos a verdade da vida, doída, no osso, mas certa; se a mascararmos, somos então surdos, incapazes de acolher os poderosos sons emitidos pela alma.

E assim Dostoievski, enclausurado de si próprio, incapaz de se ouvir-sentir-perceber por longos anos, quase surta; quase. Ainda bem, pois o relato dessa poderosíssima obra (desenvolvida após a longa reclusão), nos mostra que nos adaptamos a tudo, inclusive à devastadora constância da presença.

Que esta “Ficção”, portanto, nos faça ouvir melhor, em silêncio; e que seja esta nossa próxima REALidade.