A IBM fracassou em seu mais recente esforço para provar que a máquina pode vencer o homem. Mas foi por pouco.

O sistema de debate acionado por inteligência artificial criado pela gigante da tecnologia seis anos atrás e apelidado carinhosamente de “Miss Debater” enfrentou um dos praticantes mais experientes da arte do debate, na segunda-feira. Depois de 25 minutos de troca de opiniões sobre subsídios a pré-escolas —durante os quais o sistema de inteligência artificial com voz de mulher teve momentos de humor muito característicos do homo sapiens— , a audiência concedeu a vitória a Harish Natarajan, 31.

A disputa heterodoxa é o mais recente desafio envolvendo homens contra máquinas, em momentos sempre caracterizados por marketing intenso. Em 1996, a IBM criou um sistema computadorizado que derrotou um grande mestre de xadrez pela primeira vez. Em 2011, seu supercomputador Watson derrotou dois recordistas de vitórias no game show “Jeopardy!”. E o AlphaGo, da Alphabet, ofereceu uma demonstrou famosamente a capacidade da inteligência artificial para dominar o antigo e intrincado jogo de go. Mas vitórias em debates, que requerem criatividade e expressão emotiva, se provaram mais difíceis.

A máquina da IBM – conhecida formalmente como Project Debater – abriu a disputa da segunda-feira com uma saudação provocante: “Fui informado de que você é recordista em vitórias nas competições de debate entre seres humanos, mas desconfio de que nunca tenha enfrentado uma máquina. Bem-vindo ao futuro”.

O evento aconteceu diante de centenas de jornalistas, profissionais de tecnologia e engenheiros de software, durante a conferência Think da IBM, no centro de San Francisco. O assunto em discussão era: devemos ou não subsidiar pré-escolas.

Ginni Rometty, a presidente-executiva da IBM, estava entre os espectadores, que deram vitória a Natarajan no debate mas também disseram que a máquina da empresa havia enriquecido mais os seus conhecimentos.

Os dois participantes foram informados sobre o tópico ao mesmo tempo e tiveram 15 minutos para resumir seus argumentos a uma fala de quatro minutos, com quatro minutos para refutação e dois minutos para resumo. A ameaçadora caixa preta do Project Debater tem a altura de uma pessoa, e manteve o silêncio exceto por três círculos luminosos azuis que giravam em seu painel, enquanto ela digeria mais de 10 bilhões de sentenças de artigos noticiosos e publicações científicas. Diante da máquina, no palco, Natarajan escrevia anotações em uma folha de papel.

Embora a inteligência artificial tenha sido derrotada, o evento representou uma espécie de culminação para o criador do projeto, Noam Slonim. Sentado na primeira fila na noite da segunda-feira, o pesquisador foi visto rindo e fazendo caretas de preocupação durante o debate. Ele sabia que sua máquina era o azarão – Natarajan detém o recorde mundial de vitórias em competições de debate, e participou de três campeonatos mundiais, conquistando o título europeu em 2012.

“É como estar sentado na plateia vendo seu filho no palco competindo contra um pianista de primeira classe, e com todo mundo assistindo”, ele disse. Diferentemente do xadrez ou de “Jeopardy!”, debater requer estabelecer conexões com pessoas e convencê-las de um ponto de vista. A forma de apresentação é crucial, e “isso é território humano”.

“Miss Debater” usou pesquisas e falas de políticos para sustentar seu argumento de que subsidiar pré-escolas não é só uma questão financeira, mas um dever moral e político, para proteger algumas das crianças mais vulneráveis da sociedade. Natarajan rebateu que é muito frequente que subsídios funcionem como benefícios para a classe média, concedidos por motivos políticos.

A maior vantagem que qualquer ser humano tem sobre o Project Debater é a capacidade de falar com emoção, recorrendo ao tom, inflexão, matizes e pausas para influenciar a audiência. Uma semana atrás, em Londres, Natarajan previu que isso poderia lhe dar vantagem. “Imagino que, na situação que temos agora, um ser humano ainda encontraria mais facilidade que uma maquina para construir argumentos lógicos de uma maneira que seja razoavelmente convincente para uma audiência humana”, ele disse.

Mas o histórico de derrotas humanas diante de sistemas de inteligência artificial foi a um pensamento constante de Natarajan no período que antecedeu o debate. Ele assistiu a “AlphaGO”, um documentário sobre a disputa entre um sistema de inteligência artificial e o melhor jogador humano de go do planeta, que começou a disputa demonstrando excesso de confiança e terminou perdendo a série por quatro partidas a uma. Natarajan percebeu “a arrogância que os seres humanos às vezes exibem ao jogar contra uma máquina”.

Slonim concebeu o Project Debater em 2011, quando a vitória do Watson em “Jeopardy!” ainda ecoava. No ano seguinte, ele liderou uma equipe de pesquisa em Israel que começou a estudar a maneira pela qual os seres humanos aprendem a arte do debate, e construiu um sistema para espelhar esse processo. A máquina que sua equipe criou vasculha mais de 300 milhões de artigos de jornais e publicações cientificas para identificar os artigos relevantes quanto ao tópico em questão. Depois, precisa determinar os fatos ou opiniões que ela favorece ou rejeita, e resumir sua posição sobre isso de maneira clara e coesa. Além disso, a inteligência artificial também precisa compreender o argumento de seu oponente e preparar uma refutação.

O Project Debater é um passo para a realização do sonho do matemático britânico Alan Turing, pioneiro da inteligência artificial. Em 1950, o fundador da computação moderna propôs determinar se máquinas seriam ou não capazes de pensar por si mesmas. Ele previu que um dia participaria de uma conversa com um computador e não conseguiria distinguir a diferença entre máquina e ser humano.

“Miss Debater” ainda precisa de ajustes. Em longo prazo, Slonim e seus colegas de pesquisa, Ranit Aharonov e Talia Gershon, estão estudando se a inteligência artificial é capaz de expandir a mente humana. Por exemplo, o Project Debater poderia um dia ajudar advogados a vasculhar milhares de processos judiciais para formular argumentos finais em um julgamento, ou ajudar crianças a desenvolver sua capacidade de raciocínio crítico.

“Pense nisso por um instante. Não é todo dia que vemos uma máquina ter uma conversa inteligente com um ser humano pro 25 minutos”, disse Slonim.

Tradução de PAULO MIGLIACCI